sábado, 17 de novembro de 2012

Feira do Livro do Amapá ganha destaque nacional


CRÔNICA DO LOYOLA NO ESTADÃO SOBRE A FLAP E A BELA MACAPÁ

MACAPÁ - Equilibro-me sobre fina barra de ferro, tentando manter-me em pé. Estou em uma situação curiosa. Não estou em lugar nenhum. Claro que é força de expressão, caminho na latitude 0º, é o que leio na placa aos meus pés. Se cair para a esquerda - meio da tarde, estou de costas para o sol -, penetro no Hemisfério Norte. Se cair para a direita, toco o Hemisfério Sul. Tênue linha divide o Brasil, a Terra. Subitamente, não estou aqui, equilibro-me sobre os trilhos de minha infância, quando o desafio era não cair, era manter-se de pé sobre estreita língua de aço.
Latitude 0°. Marco Zero da capital do Amapá, que indica a passagem da linha do Equador. Nos dias do equinócio, bianual, março e setembro, o sol atravessa um círculo em um monumento de concreto e acompanha certeiro essa linha. Fronteira que atravessa igualmente o meio do estádio Zerão, levando os jogadores a atuarem um tempo no Hemisfério Sul, outro tempo no Norte. Situação insólita. Grande, diverso e curioso este Brasil. Faltava-me apenas o Amapá para concluir um périplo (epa!) por todos os Estados brasileiros, ao longo destes anos. Fechei o trajeto.
Certo dia, Carla Nobre, poeta, cantadora, se perguntou: "Por que todos têm uma feira de livros, menos o Amapá?" Foi lá e convenceu o jovem governador Camilo Capiberibe, que concordou: "Organize, dou sustentação". Havia no ar uma certa hesitação. Quem iria para tão longe? Afinal, não se chega a Macapá por rodovia, não há como. É barco ou avião, o que aumenta a excitação. Só duvidava quem não conhecia Carla e os escritores amapaenses e brasileiros contemporâneos. Ela e um grupo de assessore(a)s sorridentes e incansáveis buscaram parceiros e estruturaram a primeira Flap, Feira de Livros do Amapá.
Durante cinco dias, mais de 70 escritores (três internacionais) do Amapá e do Brasil, entre poetas, cronistas, dramaturgos, romancistas, ensaístas, contadores de histórias, se encontraram, conversaram com o público, foram às escolas, autografaram livros, frequentaram oficinas e cafés literários, participaram de mesas-redondas, de rodas de conversas e do Rufar e do Corredor literário. Houve a Tapaina das Palavras, com encontros e autógrafos. Tapaina é palavra indígena, da tribo dos vajãpis, e significa habitação.
Cada começo de noite, num palco ao ar livre, havia poetas e cantadores. Qual o diferencial da Flap? Ela é aberta, tudo é gratuito, a população participa. E como! Foi o maior ti-ti-ti. Era difícil circular pela feira de livros, sempre congestionada. Gente curiosa, gente feliz, gente a nos fotografar, a pedir autógrafos, a perguntar.
O governador injetou R$ 90 mil em vale-livro e o que se viu foi estudante (e professor) por todo lado com o vale na mão, comprando, comprando. (*) Ele e a mulher, a linda Cláudia, passaram todos os dias pela feira, o que me pareceu inusitado; em geral, autoridades desaparecem. Foi mais longe o casal, ofereceu na residência oficial um jantar com pratos típicos para todos os participantes.
Leandro Leite Leocádio, poeta e um dos organizadores da Off Flip, em Paraty, afirmou em seu blog: "A Flap nasceu grande, parece que já tem cinco anos, tudo funcionou azeitado." Carla Nobre tem "musculatura", mexe, remexe, leva escritor, organiza, comanda, esbraveja, sorri, vê o que funciona e o que não, acompanhada por um fiel escudeiro, o marido Bené, doce figura. Esta primeira Flap teve como patrona Esmeraldina dos Santos, poeta e escritora quilombola.
Macapá é cidade quente, arborizada, cheia de praças. O orgulho do povo é ser a única capital brasileira banhada pelo Rio Amazonas. Nem Manaus (Rio Negro) nem Belém (Rio Pará) podem ostentar o título. De margem a margem são 17 quilômetros, o que deixa embasbacado (epa!) um paulista como eu. As águas são pontilhadas por ilhas. Soube que são milhares! Imperdível - e necessário - é comer o camarão no bafo com açaí, mais farinha d'água e farofa, nos fins de tarde, à beira-rio. E deixar espaço para enfrentar o peixe ao molho de leite de coco, ou a maniçoba (a feijoada deles), o pirarucu crocante, o tucunaré grelhado ao creme e banana. Não esquecer de acrescentar pingos de tucupi com pimenta. Falando em tucupi, aqui também se come o pato nesse molho. Há ainda o charque, o tacacá, o tucunaré na chapa com leite de castanha, o filhote, o tambaqui, o gurijuba, a dourada e o matrinchã. Uma semana para experimentar todos. Caminhando pela orla, deparamos com vendedores de roletes gelados de cana.
Cuidado com o que ouve e com o que fala. Algumas dicas são necessárias. Se alguém disser que você é panema, saiba logo que está dizendo que você é paradão, abestado. Praticamente o mesmo que pomba-lesa. Se disserem fanchião, saiba que é vencedor, gabola, metido a besta. Fona quer dizer o último, insiguerado é viciado. Istórdio é ressaca, ficar doente. Jarana é o mão-de-vaca. Donzela é um tipo de bolacha, enquanto "dor de viado" é uma dor na altura do umbigo, por causa ao cansaço.
Capô de fusca é mulher que tem a genitália avantajada. E quando alguém ao seu lado comentar xilis-zire, saiba que disse: deixe eles irem. Só tome cuidado com a pissica, ou má sorte, mau agouro, azar. E olhe meu conselho: não saia de Macapá sem antes tomar uma boa gengibirra gelada. Quanto mais toma, mais disposto fica.
Chamada capital do meio do mundo, Macapá tem uma estátua de São José, padroeiro da cidade, colocada no alto da Pedra do Guindaste. Embaixo dessa pedra mora uma cobra grande que bebe a água do rio, de modo que as águas não sobem. Se a cobra for tirada dali, o Amazonas cresce, sobe e inunda a cidade.
(*) Aproveito para mostrar minha indignação. Diante de gestos como esse, de alguém que entende o papel do livro e sua importância, lembro que na semana passada fui a Itapeva, para a Feira de Livros, organizada com imenso sacrifício por um grupo e praticamente sem verbas. Procurada, a secretária de Educação desdenhou oferecendo nada mais nada menos que mil reais. Uma esmola. Depois, ela foi à abertura e falou da necessidade de feiras e foi fotografada. Nas mãos de gente assim está a educação em muitos lugares do Brasil.
Paraty marca presença na Feira do Livro do Amapá


Entre 3 e 7 de novembro, um grupo de artistas de Paraty esteve na FLAP, 1º Feira do Livro do Amapá, participando de atividades em vários espaços situados nas proximidades do Rio Amazonas, que banha a cidade de Macapá.

No Teatro das Bacabeiras, o escritor Ovídio Poli Junior mediou a palestra de Ignácio de Loyola Brandão, convidado especial da Feira. Ovídio esteve também em escolas estaduais conversando com estudantes e educadores e deu uma palestra sobre Monteiro Lobato a alunos de ensino médio, além de participar de uma avaliação com os organizadores da Feira ao final do evento.

A artista plástica Olga Yamashiro conduziu durante três dias uma oficina de leitura, ilustração e encadernação artesanal de livros para estudantes e professores na Escola de Administração Pública do Amapá. A oficina teve como tema o livro “A rebelião dos peixes” (de Ovídio Poli Junior) e contou com a participação dos ilustradores da obra, Pedro e Marcus, filhos do casal. Ao final da oficina cada participante saiu com um exemplar ilustrado do livro

Os escritores Flávio de Araújo e Leandro Leite Leocadio marcaram presença em vários momentos da Feira, participando de leituras nos saraus que aconteceram às margens do Rio Amazonas e também de debates em escolas estaduais, conversando com escritores, alunos e professores.

Os convidados da Feira foram recebidos em um jantar oferecido na residência do governador Camilo Capiberibe e da primeira-dama Claudia Camargo Capiberibe, que deram apoio decisivo para a realização da primeira edição do evento. O governo estadual destinou cerca de 100 mil reais para a distribuição de vale-livros a estudantes e professores, valor que deverá ser triplicado no ano que vem.

O grupo de Paraty fez uma travessia no Rio Amazonas e visitou uma escola na Ilha de Santana, onde os organizadores da Feira fizeram entrega de livros a estudantes ribeirinhos. O grupo conheceu também o Museu Sacaca (dedicado à cultura das comunidades tradicionais locais) e o magnífico Quilombo do Curiaú (extensa área com criação de búfalos e gado bovino, que na seca se assemelha a uma savana africana e no período de cheia aos alagadiços do Pantanal). Sem falar da travesssia do Rio Amazonas.

Os artistas de Paraty foram recebidos com grande carinho por Carla Nobre e Benedito de Queiroz Alcântara, organizadores e entusiastas do evento. Em julho, Carla Nobre e uma comitiva de artistas amapaenses estarão em Paraty durante a FLIP e participarão da programação da OFF FLIP (na qual estiveram em 2006 com o grupo Abeporá das Palavras).
 
 

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